O Nome do Que Ficou

Não foi abandono!

Abandono é quando alguém vai embora.
Ela ficou.

Ficou presente no corpo,
ausente no gesto.
Ficou na voz que corrige,
no olhar que mede,
no amor que sempre vinha com condições invisíveis.

O que morreu ali não foi alguém.
Foi uma possibilidade.

A possibilidade de ouvir “eu te amo”
sem precisar merecer.
De receber um abraço
sem precisar explicar.
De existir sem ser avaliado.

Isso tem nome:
luto do afeto não recebido.

É o luto mais silencioso,
porque ninguém vê o caixão.
Mas você sente o peso todos os dias.

Com o tempo, aprendi a sobreviver.
Construí um mundo onde não sentir parecia mais seguro.
Um mundo sem pedidos,
sem expectativas,
sem fome de colo.

Mas toda fome ignorada aprende a gritar de outro jeito.

A dor virou hábito.
O hábito virou punição.
E a punição virou linguagem.

Quando algo bom chegava,
eu me adiantava em destruir.
Quando alguém ajudava,
eu pagava com sangue interno.
Quando o afeto ameaçava ficar,
eu corria —
não por covardia,
mas por memória.

Porque quem aprende cedo
que carinho machuca
cresce confundindo cuidado com perigo.

Não foi a droga que criou isso.
Ela só deu forma.
Não foi o desejo de morrer.
Foi o desejo de não precisar mais pedir.

Hoje eu entendo:
não era a morte que me chamava,
era a infância que nunca respondeu.

E mesmo assim,
quando sinto falta de carinho,
é nela que penso.
Não por amor idealizado,
mas porque tudo deixa marcas —
até o que faltou.

Este é o meu luto.
Não pelo que perdi,
mas pelo que nunca tive
e mesmo assim moldou quem eu sou.

Não peço que isso seja amenizado.
Algumas feridas não querem curativo —
querem reconhecimento.

Eu sigo vivo.
Não porque venci,
mas porque ainda não desisti
de aprender a me cuidar
sem me punir.

E talvez, só talvez,
isso já seja
um começo.

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