O Nome do Que Ficou
Não foi abandono! Abandono é quando alguém vai embora. Ela ficou. Ficou presente no corpo, ausente no gesto. Ficou na voz que corrige, no olhar que mede, no amor que sempre vinha com condições invisíveis. O que morreu ali não foi alguém. Foi uma possibilidade. A possibilidade de ouvir “eu te amo” sem precisar merecer. De receber um abraço sem precisar explicar. De existir sem ser avaliado. Isso tem nome: luto do afeto não recebido . É o luto mais silencioso, porque ninguém vê o caixão. Mas você sente o peso todos os dias. Com o tempo, aprendi a sobreviver. Construí um mundo onde não sentir parecia mais seguro. Um mundo sem pedidos, sem expectativas, sem fome de colo. Mas toda fome ignorada aprende a gritar de outro jeito. A dor virou hábito. O hábito virou punição. E a punição virou linguagem. Quando algo bom chegava, eu me adiantava em destruir. Quando alguém ajudava, eu pagava com sangue interno. Quando o afeto ameaçava ficar, eu corria — não por co...