6:48am

Tudo começou em 2020/2021 (acho), quando achei que conseguiria lidar com dois empregos, prestando serviço. Naquele momento, a empresa em que eu estava tinha pouca demanda, e eu precisava preencher o vazio — procurando prestar serviço para outra empresa.

Claramente eu estava errado. Eu havia me esquecido de que já tinha passado por aquilo antes. O burnout e a pressão psicológica foram grandes. Enquanto uma empresa me deixava vazio, a outra me consumia ao extremo. Aceitei esse desafio pelo dinheiro. Precisava de caixa, do famoso “pé de meia”. Enganei-me novamente. Quanto mais eu ganhava, maior ficava o padrão de vida, e os planos de guardar dinheiro continuavam ali — vazios.

Foi quando comecei a me sentir vazio, falho, e tudo o que já havia sentido voltou. Mas dessa vez foi diferente. Eu havia criado um plano perfeito. Uma nova personalidade. Um novo mundo. Um lugar onde não houvesse problemas, pensamentos ou responsabilidades. Apenas o Eu-Não-Pensante. O eu vazio.

Mas eu não criei esse mundo sozinho. Ele estava comigo. Eu deixei Ele entrar, sentar na cadeira elegante e moldar tudo. Nosso mundo. Um mundo onde existíamos apenas eu e Ele. Sem choros. Ele me acompanha há anos. Eu acredito Nele. Ele não é romântico, não é amigável, não é companheiro. Ele apenas quer você. Ele sempre aparecia quando eu queria fugir, desaparecer.

Ele é mau. E onde há sofrimento, Ele se alimenta. Vai dominando, se instalando devagar, no começo quase imperceptível, até criar o Nosso Mundo. E eu deixei. Eu estava cansado do mundo real, do mundo verdadeiro. E infelizmente esse Nosso Mundo foi criado perfeitamente. Ele soube moldar tudo. E eu me senti confortável. Perfeitamente confortável no vazio.

Oi. Meu nome é Luan. E eu sou adicto. Usuário de cocaína há mais de dez anos.

Os últimos quatro anos foram os mais intensos. Intensos a ponto de esse Novo Mundo parecer completo. Não tenho vergonha de falar. Não quero ser visto como coitado nem como mais um esperando a vez no cemitério. Quero apenas contar como tudo começou a desabar — e como eu deixei.

Demorei anos para perceber e até para conhecer a pior fase da cocaína. Não a euforia, mas o depois. Onde ela me deixou: desfazendo o Nosso Mundo e me deixando com zero no mundo real. Ser fraco ou não ter fé não traz respostas. Vou te dizer algo: você já deve ter sentido a sensação de estar fodido, deprimido, onde sumir parece a única solução. “Sumir”. Suicídio.

Já tentei. Várias vezes. Jogar o carro em alta velocidade contra algo onde só eu iria. Chorando. Clamando pela morte. “Socorro, me leve. Tire essa dor.” Mas eu tenho medo. De tudo isso. De olhar para o pulso e pensar: por que não? Sou. Não sou. Quero. Não quero. Queria. Mas vejo isso de outra forma. Onde egoísmo e força parecem requisitos. E eu sou fraco. E não sou egoísta nesse ponto.

Hoje, entre choros e medo, talvez seja minha última semana. Tentei por anos esconder, não aceitar, mascarar, para que minha fragilidade não fosse tocada. Ego. Internação. Perdi tudo. Tudo. Como todos falam — e eu não acreditava — você perde coisas, pessoas, você se perde.

Cheguei ao ponto de perder a última peça restante: aqueles que eu machuco. E vem o sofrimento por falhar. Falhar já virou rotina. Mais que rotina. Cômico. Desleal. Mas eu não consigo sair do Novo Mundo, mesmo ele se desfazendo. Eu sigo tapando buracos só para continuar ali.

Tenho medo de morrer. Mas a desistência é o que eu vejo. A morte está ao meu lado agora, esperando. Esperando eu segurar a mão estendida para a derrota. Ela me encara, impaciente, porque hoje ainda não estendi a mão. Aceitar. Acabou. Chega. Ele venceu essa batalha.

Droga. Como fui e sou fraco. Como estou fraco. Não quero. Vou sentir falta deles. Não posso. Se afaste.

Dizem que escrevemos nossas próprias histórias. Eu troquei os papéis e a caneta. Os papéis são a minha pele. A caneta são meus dedos, à base de sangue. Meu sangue derrama. Forte. Pode ser nada. Pode ser tudo. Eu me limpo todos os dias. Não há mais onde tapar. Penso neles. Choro por eles. E pior: por não estar com eles.

E então algo fica claro.

Esse luto não é só pela droga. Não é só pelas escolhas. Não é só pelo que eu fiz. É o luto por algo que nunca existiu do jeito que precisava. Um luto sem velório, sem despedida. O luto pelo amor que nunca teve corpo. Pelo apego primário que não veio. Pelo abraço sem julgamento. Pelo “eu te amo” que nunca chegou inteiro.

Os pensamentos suicidas não nascem do nada. Não vêm só da droga. Não vêm só de mim. Eles vêm da falta. Da ausência que se repete desde cedo. E não será ninguém que preencherá isso. Sou eu que terei que aprender a cuidar dessa ferida.

Por isso os sonhos. Por isso a confusão. Não é porque alguém destruiu minha infância. É porque eu só queria ter ouvido, uma vez, um “eu te amo” verdadeiro. Ou recebido um abraço sem cobrança.

Ela nunca saberá o que matou ou feriu. E eu não quero que isso seja amenizado. Mas sabe quem é a primeira pessoa em quem eu penso quando sinto falta de carinho? Ela. Mesmo sem ligar. Mesmo sem procurar. Porque tudo deixa marcas. Tudo tem consequência.

Tudo vira desculpa. Tudo vira manipulação. E ainda assim, hoje, quantas vezes olhei para meus pulsos e disse “não”? Não porque a dor passou. Mas porque, apesar de tudo, eu ainda sentiria falta.

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